Ordens Mundiais: Do Bipolarismo ao Multipolarismo

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By Éder Civitarese

As ordens mundiais referem-se à estrutura organizada que define as relações políticas, econômicas e sociais entre estados e atores globais. Essa estrutura está profundamente enraizada nas ideias de poder, influência e cooperação que predominam em um determinado período histórico. 

As ordens mundiais não são estáticas; elas se transformam em resposta a mudanças nas dinâmicas de poder, emergências sociais e avanços tecnológicos.

Na geopolítica, compreender as ordens mundiais é essencial para analisar como os estados interagem e competem entre si. Uma ordem mundial estabelecida oferece um conjunto de regras e normas que regula comportamentos e expectativas entre os países.

Essa regulamentação é crucial para a manutenção da paz, a promoção do comércio e a aplicação da justiça internacional. Por outro lado, uma ordem mundial instável pode levar a conflitos, confrontos militares e crises econômicas, ressaltando a importância de um sistema internacional equilibrado.

Breve Visão Histórica das Ordens Mundiais Anteriores

A história das ordens mundiais é marcada por transições significativas que refletem o equilíbrio de poder em diferentes contextos históricos. Duas das mais significativas ordens mundiais que moldaram o século XX foram o bipolarismo da Guerra Fria e a ordem unipolar posterior à Guerra Fria. Atualmente, o mundo parece estar transitando para uma ordem multipolar.

Bipolarismo da Guerra Fria (1947-1991)

Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi dividido em duas esferas de influência dominadas por duas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética. Essa divisão levou à Guerra Fria, caracterizada pela competição ideológica entre o capitalismo, defendido pelos EUA, e o comunismo, promovido pela URSS. 

Durante esse período, a ordem mundial foi marcada por tensões, guerras por procuração e corridas armamentistas que moldaram a política internacional por várias décadas. 

O conceito de “equilíbrio do terror” foi fundamental, pois as duas potências possuíam arsenais nucleares capazes de causar destruição em massa, o que inibia um conflito direto.

Unipolarismo e Globalização (1991-2008)

Com o colapso da União Soviética em 1991, o mundo entrou em uma fase de unipolaridade, onde os Estados Unidos emergiram como a única superpotência global. 

Nesse novo cenário, houve a promoção de uma ordem baseada em princípios liberais, como a democracia e os direitos humanos. 

A globalização se acelerou, facilitando a interconexão entre os países e a difusão de ideias. No entanto, essa fase também trouxe desafios complexos, como a instabilidade em várias regiões e o surgimento de novos atores não estatais, como organizações terroristas e corporações multinacionais.

Possível Multipolaridade do Século XXI

Nos últimos anos, observamos sinais de um retorno a uma configuração multipolar, onde diferentes potências emergentes, como a China e a Rússia, após a revitalização geopolítica, além dos blocos econômicos União Europeia e BRICS, estão reclamando seu espaço na arena internacional. 

Ilustração referente às ordens mundiais com a queda e surgimento de novas potências

Historicamente, esse tipo de sistema existiu antes da Segunda Guerra Mundial, quando diversas potências como o Reino Unido, Alemanha, França, Rússia e Japão disputavam influência na agenda internacional.

Essa transição novamente nos convida a avaliar a natureza da ordem mundial e como as relações de poder estão se reconfigurando. 

As interações entre essas potências emergentes e as tradições hegemônicas dos países ocidentais indicam um futuro complexo em que a cooperação e o conflito podem coexistir.

A Emergência de Novas Potências

Um dos principais argumentos a favor da multipolaridade é a crescente importância econômica de países fora do tradicional eixo ocidental. A China, por exemplo, registrou um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 17,8 trilhões, ultrapassando os Estados Unidos em termos de paridade do poder de compra (PPC) e representando aproximadamente 18% da economia global.

A ascensão da China como uma potência global é, sem dúvida, um dos fenômenos mais notáveis do século XXI. Sua transformação econômica desde a reforma e abertura na década de 1970 permitiu um crescimento vertiginoso, colocando-a como a segunda maior economia do mundo. 

Através de iniciativas como a “Belt and Road Initiative” (Nova Rota da Seda), a China está expandindo sua influência global, investindo em infraestrutura e desenvolvimento em diversas regiões, particularmente na África e na Ásia. Essa estratégia não apenas estabelece laços econômicos, mas também projeta poder político e diplomático.

Além disso, o grupo BRICS, que agora se expandiu para incluir Egito, Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos e Etiópia, superou o G7, contribuindo com 31,5% do PIB mundial. Outro destaque é a Índia, que ocupa a quinta posição entre as maiores economias do mundo e mantém uma taxa de crescimento superior a 6% ao ano. Esse cenário posiciona a Índia como um ator fundamental na nova configuração econômica internacional.

A transformação rumo a um mundo multipolar é igualmente evidente nas esferas científica e cultural. Atualmente, a China se tornou o país com a maior produção acadêmica no planeta, superando os Estados Unidos e respondendo por 23% de todas as publicações científicas. Em áreas estratégicas, como inteligência artificial, semicondutores e energias renováveis, Pequim já se destaca como líder em termos de investimentos e registro de patentes.

Por sua vez, a Índia tem visto suas universidades e centros de pesquisa em tecnologia e saúde ganhar cada vez mais visibilidade e relevância no cenário global. Essa ascensão não apenas demonstra a capacidade inovadora de ambos os países, mas também sinaliza uma mudança significativa na liderança do conhecimento e da pesquisa em nível mundial.

Já no campo militar, o fracasso da ocupação do Afeganistão, a dificuldade em alcançar um desfecho favorável na guerra na Ucrânia e a incapacidade de conter a crescente influência da China na região do Indo-Pacífico evidenciam que os Estados Unidos já não exercem um controle unipolar sobre a geopolítica global.

Além disso, mesmo frente a sanções econômicas, a Rússia conseguiu demonstrar resiliência em suas capacidades militares e econômicas, adaptando sua estratégia ao redirecionar suas exportações de energia para mercados na Ásia

Conclusão

As ações recentes dos Estados Unidos, incluindo as sanções contra a Rússia, a intensificação da competição tecnológica com a China e o fortalecimento de parcerias estratégicas no Indo-Pacífico, evidenciam um esforço deliberado para manter sua posição como potência hegemônica global. 

Entretanto, essas iniciativas podem ter um efeito inesperado e paradoxal. Em vez de reverter a crescente multipolaridade do cenário internacional, elas podem acelerar sua formação.

A manutenção de sanções severas contra a Rússia, por exemplo, pode levar essa nação a buscar alternativas econômicas e políticas, aumentando sua cooperação com outros estados não ocidentais ou desafiadores do status quo, como China e Índia

Da mesma forma, a luta por liderança tecnológica com a China não apenas intensifica a rivalidade, mas também encoraja a nação asiática a consolidar seus próprios blocos comerciais e tecnológicos, afetando o equilíbrio de poder.

Além disso, o reforço de alianças no Indo-Pacífico, embora vise conter a ascensão da China, pode resultar em uma maior unificação dos países dessa região em torno de uma agenda que questiona a predominância americana. 

À medida que nações como a Índia, Japão e Austrália se agrupam para lidar com as ameaças percebidas, a possibilidade de uma nova configuração de poder emerge, onde múltiplos atores influenciam as dinâmicas globais.

Portanto, em vez de solidificar a unipolaridade americana, essas estratégias podem, paradoxalmente, contribuir para um mundo mais multipolar, onde novos centros de poder estão se formando, desafiando a hegemonia tradicional e reconfigurando a governança global. Em tal ambiente, a colaboração e o diálogo entre diversas potências se tornam cruciais para a estabilidade e a paz mundiais.

REFERÊNCIAS

BUENO, G. Existe uma Ordem Multipolar?» Relações Internacionais. Disponível em: <https://relacoesexteriores.com.br/existe-uma-ordem-multipolar/>. Acesso em: 18 abr. 2025.

Crise da ordem mundial e a disputa por sua reconfiguração. Disponível em: <https://thetricontinental.org/pt-pt/brasil/crise-da-ordem-mundial-e-disputa-por-sua-reconfiguracao/>. Acesso em: 18 abr. 2025.

Nova Ordem Mundial – Definição, Características e Era Pós-Vírus. Disponível em: <https://www.educacaonamao.com.br/nova-ordem-mundial/>. Acesso em: 27 abr. 2025.

SZILÁGYI, I. O nascimento do mundo multipolar e os fundamentos geopolíticos e históricos da estratégia imperial da política externa russa. GeoPUC, Rio de Janeiro, Brasil, v. 16, p. e00098, 2024. Disponível em: https://geopuc.emnuvens.com.br/revista/article/view/98. Acesso em: 17 abr. 2025.

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